Como as mulheres estão a transformar a economia das suas famílias com sabão medicinal

Grupo de mulheres metodistas no processo da fabricação de sabão medicinal na Beira.
Grupo de mulheres metodistas no processo da fabricação de sabão medicinal na Beira.

Um simples sabão orgânico está a transformar vidas no Distrito Eclesiástico de Sofala. Produzido pelas Mulheres Metodistas Unidas (MMU) da Igreja Metodista Unida em Moçambique – Norte, o sabão medicinal tornou-se um símbolo de esperança, saúde e autonomia económica para dezenas de famílias da província de Sofala.

As mulheres fabricam o sabão na base de partes de plantas locais como a moringa e o mussiro. Na província de Sofala estas iniciativas ganharam uma relevância crucial no contexto pós-desastres naturais (como os ciclones Idai e Eloise). Diante da destruição e do surto de doenças como a cólera, grupos de mulheres uniram-se em cooperativas para fabricar sabão artesanal recorrendo a recursos locais (como óleo de coco, plantas medicinais nativas e sementes de plantas silvestres) para garantir a higiene comunitária e o sustento das suas famílias, para além de ser como uma oportunidade de geração de renda e fortalecimento do papel da mulher na comunidade.

Segundo a responsável pelo projecto, Marta Uaciquete Bando, esta iniciativa demonstra que a igreja pode promover o Evangelho através de acções concretas de cuidado com a saúde e desenvolvimento humano. Enquanto fabricam o sabão, abre-se espaço para um devocional e as mulheres recebem ensinamentos bíblicos que contribuem para transformar espiritualmente a vida das comunidades.

Bando termina enfactizando que a iniciativa vai muito além da produção de sabão. “O projecto fortalece as mulheres, oferecendo conhecimentos técnicos e noções de gestão financeira para que possam produzir, vender e gerar rendimento para o sustento das suas famílias. O reforço ao financiamento a estas iniciativas por organizações doadoras interessadas, permitirá aumentar a produção de sabão medicinal em escala maior, adquirir equipamentos adequados para melhorar o processo de fabrico, expandir a formação para mais mulheres, aperfeiçoar a embalagem e a comercialização do produto e levar o projecto a novos distritos e comunidades, fortalecendo o seu impacto social, económico e comunitário”.

Mais de 60 famílias beneficiadas em Sofala

O impacto do projecto já é visível em várias comunidades do Distrito Eclesiástico de Sofala, onde mais de 60 famílias se beneficiam directamente da iniciativa. Além da distribuição solidária a famílias carenciadas, as mulheres recebem formação práctica sobre o processo de produção do sabão, armazenamento, embalagem e comercialização, através de organizações não-governamentais. Estas competências permitem que cada participante transforme o conhecimento adquirido numa actividade económica sustentável.

Sabonete medicinal, produto final do projeto de mulheres metodistas em Sofala.  
Sabonete medicinal, produto final do projeto de mulheres metodistas em Sofala.

O assistente episcopal da Conferência Moçambique Norte, Jacob Jenhuro, explicou que o metodismo está historicamente enraizado na teologia de John Wesley, e sempre defendeu que a fé cristã deve manifestar-se tanto na piedade pessoal quanto na acção social (a "santidade social"). "A produção de sabão medicinal na Igreja Metodista Unida poderá ajudar a promover a saúde, a higiene e o desenvolvimento económico das famílias. Mulheres capacitadas, confiantes e com autonomia económica tornam-se pilares ainda mais fortes na liderança e na transmissão da fé dentro da Igreja”, defendeu Jenhuro. Ele acrescentou ainda que o projecto procura capacitar principalmente as Mulheres Metodistas e outros membros da comunidade para que adquiram conhecimentos de produção e empreendedorismo. "A iniciativa nasceu no âmbito da missão social da Conferência Moçambique Norte da Igreja Metodista Unida, procurando responder aos desafios enfrentados por muitas comunidades no acesso a produtos de higiene de qualidade", contou. Jacob se refere inclusive à questão de ocupação, uma vez que muitas mulheres são desafiadas com falta de emprego, o que levanta uma preocupação sobretudo para que as jovens abandonem hábitos de casamentos prematuros, dando resposta ao crescimento da Igreja e o fortalecimento das comunidades.

As Mulheres Metodistas e as da comunidade em geral beneficiam-se sobremaneira deste projecto, e o mesmo ajuda na promoção, inclusão económica, autonomia financeira e desenvolvimento local. Muitas participantes passaram a ver a produção de sabão como uma oportunidade de criar uma fonte de rendimento para apoiar as despesas familiares, educação dos filhos e outras necessidades básicas, incluindo o abandono de practicas maléficas.

Helena João Magule, membro beneficiaria da comunidade da Munhava, arredores da cidade da Beira não escondeu a sua alegria. "Graças a este projecto de sabão medicinal, que sinto ser uma verdadeira bênção divina nas nossas vidas, a nossa comunidade ganhou saúde, a minha economia doméstica prospera a cada dia e nós, mulheres, conquistamos a nossa autonomia. Minhas irmãs da comunidade, convido-vos a abraçarem projectos similares: esta é uma verdadeira obra de Deus que cura corpos, fortalece o lar e nos capacita a transformar a sociedade através da fé e do trabalho."

“Jesus curava os enfermos e alimentava os famintos enquanto pregava. O fabrico de sabão medicinal alinha na acção da Igreja com o ministério de cura de Jesus", revelou a Sperintendente do distrito de Sofala, Marta Ricardina Vilanculos Cossa. Marta discorreu sobre como projecto demonstra o amor de Deus de forma tangível. Ao responder a uma necessidade básica de saúde e higiene, a Igreja ganha a simpatia e o respeito da comunidade local, abrindo portas para partilhar o Evangelho, alcançando pessoas que não entrariam inicialmente numa igreja. O produto torna-se uma "ponte" de contacto e diálogo entre as mulheres metodistas e a comunidade envolvente.

E o sucesso da iniciativa em Sofala está a abrir portas para novos distritos. "O projecto resulta no crescimento numérico e espiritual da Igreja e confere-lhes um sentido de propósito. O trabalho em equipa no fabrico do sabão serve como um espaço informal de discipulado, comunhão e partilha de experiências de fé", contou Marta Ricardina Vilanculos Cossa.

Cossa acrescentou que projecto encontra-se em processo de expansão para o Distrito de Manica, levando o modelo de produção comunitária a outras regiões da Igreja Metodista Unida em Moçambique – Norte. As lideranças da igreja consideram que esta expansão permitirá beneficiar mais famílias, fortalecer grupos de mulheres e criar oportunidades de emprego e geração de renda. Apesar dos resultados positivos, o projecto enfrenta desafios relacionados com a aquisição de matérias-primas, equipamentos de produção e materiais de embalagem. 

A ação incentiva o respeito pelo meio ambiente e valoriza o conhecimento tradicional sobre a flora local. Uma boa parte do sabão medicinal é comercializado para garantir a sustentabilidade do projecto e a geração de renda, privilegiando ingredientes naturais com benefícios comprovados para a pele, e actuando na prevenção de doenças causadas pela falta de higiene. Para que esta obra de Deus continue a transformar vidas, a Igreja Metodista Unida apela ao apoio de parceiros, instituições e pessoas de boa vontade. O reforço do financiamento permitirá aumentar a produção, adquirir equipamentos adequados, expandir a formação para mais mulheres, melhorar a embalagem e a comercialização do produto, levando este projeto de saúde, autonomia feminina e prosperidade doméstica a novos distritos e comunidades. Para apoiar esse projeto, entre em contato com a Igreja Metodista Unida em Moçambique através do e-mail [email protected]

Francisco Tivane, comunicador da Conferência de Moçambique Norte. Editado e adaptado por Ezequiel Nhantumbo, correspondente lusófono da Comunicações Metodista Unida, sediado em Maputo.

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