Quando o silêncio termina

Participantes da Conferência sobre a violência baseado no gênero, vestidas de preto numa “ Quinta feira de preto” durante a conferência na Igreja Metodista Unida Bispo Ralph Edward Dodge em novembro de 2025 em Luanda, Angola. Foto cortesia da Organização de Mulheres da Conferência Anual do Oeste de Angola.
Participantes da Conferência sobre a violência baseado no gênero, vestidas de preto numa “ Quinta feira de preto” durante a conferência na Igreja Metodista Unida Bispo Ralph Edward Dodge em novembro de 2025 em Luanda, Angola. Foto cortesia da Organização de Mulheres da Conferência Anual do Oeste de Angola.

Após anos de afastamento internacional, mulheres metodistas angolanas voltam à Federação Mundial Metodista Unida e transformam uma conferência em Luanda num marco de renovação espiritual, social e de combate à violência que afecta cerca de 40 mulheres por dia no país.

O ambiente era de celebração, mas também de responsabilidade. Entre orações, cânticos e abraços emocionados, mulheres metodistas de várias regiões de Angola reuniram-se na capital de Angola, em Luanda, para um encontro que ultrapassou o significado de uma simples conferência. Ali, marcou-se oficialmente um novo capítulo: o regresso das mulheres metodistas angolanas à Federação Mundial Metodista e da Igreja das Mulheres Unidas.

Durante três dias, o espaço religioso tornou-se palco de diálogo aberto sobre um dos problemas sociais mais urgentes do país — a violência baseada no gênero — enquanto se reconstruíam pontes internacionais que fortalecem a missão feminina metodista .

Reencontro global, missão renovada

Organizada pela Organização de Mulheres Metodistas em Angola, o evento foi orientado pelo tema “A Violência Baseada no Género” e contou com mais de 800 participantes, entre eles líderes religiosos e representantes comunitários. O evento proporcionou uma plataforma de discussão e reflexão sobre um fenómeno que continua a afectar mulheres e crianças em diversas comunidades angolanas. Segundo a organização, a conferência teve como principal objectivo sensibilizar e educar mulheres e homens sobre as causas, consequências e formas de prevenção, bem como fortalecer o apoio às vítimas da violência.

“Este encontro representa o renascimento da nossa caminhada. Voltamos a fazer parte de uma missão global com a qual já trabalhamos no passado e que promove justiça e dignidade para todas as mulheres” , afirmou Vitória José Agostinho dos Santos, ex-directora da Organização e actual conselheira.

A reconexão permitirá maior formação, intercâmbio de experiências e desenvolvimento de projectos sociais alinhados com iniciativas metodistas globais.

Saiba mais

A Violência baseada no gênero (VBG) é qualquer agressão cometida contra uma pessoa devido ao seu gênero. A VBG inclui: violência física, psicológica, sexual, económica, abuso doméstico, etc.

Em Angola, mais de 14.500 casos foram registados em 2024, uma média de 40 casos por dia. Cerca de 1 em cada 3 mulheres já sofreu violência física ao longo da vida.

A Violência baseada no gênero (VBG) é qualquer agressão cometida contra uma pessoa devido ao seu gênero. A VBG inclui: violência física, psicológica, sexual, económica, abuso doméstico, etc.

O que é quinta-feira de preto?

Em todos os países, a violência contra as mulheres é uma realidade trágica. Esta violência é frequentemente escondida, e as vítimas são muitas vezes silenciadas, temendo o estigma e mais violência. Todos nós temos a responsabilidade de falar contra a violência, para garantir que mulheres e homens, meninos e meninas, estejam protegidos contra o estupro e violência em casa, na escola, no trabalho, nas ruas e em todos os lugares em nossas sociedades.

A campanha é simples, mas profunda. Use preto às quintas-feiras. Use um bóton para declarar que você faz parte do movimento global que resiste a atitudes e práticas que permitem o estupro e a violência. Mostre o seu respeito pelas mulheres que são resilientes diante da injustiça e da violência e incentive os outros a se juntarem a campanha. Nesta campanha, a cor preta é usada como uma cor de resistência e resiliência e não com  conotações raciais negativas, como muitas vezes acontece.

A campanha foi inspirada por:

• As mães de desaparecidos em Buenos Aires, Argentina, que às quintas-feiras protestam na  Plaza de Mayo, contra o desaparecimento dos seus filhos durante a violenta ditadura.

• As mulheres de preto em Israel e na Palestina, que protestam contra a guerra e a violência.

• Mulheres no Ruanda e na Bósnia que protestaram contra o uso de estupro como arma de guerra.

• O movimento Black Sash na África do Sul que protestou contra o apartheid e seu uso de violência contra os negros.

Uma realidade que exige respostas urgentes

A conferência acontece num contexto preocupante. Dados nacionais indicam que mais de 14.500 casos de violência doméstica foram registados em Angola em 2024, o equivalente a aproximadamente 40 casos por dia.

Os números reforçam a urgência de acções educativas e comunitárias, tema central dos painéis realizados duas vezes por dia durante o encontro.

“Falar é o primeiro passo para quebrar ciclos de violência que durante muito tempo permaneceram escondidos.”  Afirmou Patricia Mapani, actual Presidente da Federação Mundial Metodista e das Mulheres Unidas, da área Austral e Oriental de África.

O desafio de enfrentar o silêncio dentro da própria igreja

Especialistas e participantes destacaram o papel conjunto das igrejas, famílias e instituições públicas na prevenção e apoio às vítimas.

As Participantes reconheceram que em diversas comunidades cristãs, vítimas continuam a sofrer em silêncio por medo de julgamento, vergonha, pressão espiritual ou receio de enfrentar figuras de autoridade religiosa.

As mulheres metodistas defenderam que a igreja deve assumir um papel mais transparente e responsável no tratamento destes casos, especialmente quando envolvem membros da comunidade cristã  ou líderes espirituais. A autoridade religiosa nunca deve ser utilizada para encobrir abusos ou impedir denúncias. A igreja deve ser um lugar de cura e protecção, não um espaço onde a dor é escondida por medo ou influência.

Os debates destacaram que enfrentar a violência dentro do ambiente religioso exige coragem institucional, mecanismos seguros de denúncia e acompanhamento pastoral responsável às vítimas. Líderes presentes defenderam ainda a necessidade de formação contínua para o clero sobre ética ministerial, abuso de poder e protecção de pessoas vulneráveis.

Para muitas participantes, quebrar o silêncio dentro da própria igreja representa um dos maiores desafios do combate à violência baseada no gênero. “ O verdadeiro testemunho cristão não consiste em esconder problemas, mas em enfrentá-los com verdade, justiça e compaixão”, disse Zeferina Maria, membro da Organização de Mulheres em Angola.

O futuro começa agora

Mais do que um evento religioso, a conferência tornou-se num marco institucional e social. Entre reflexão espiritual e acção comunitária, ficou evidente que o movimento feminino metodista em Angola inicia uma nova etapa — mais unido, mais visível e mais comprometido com a transformação social. A reconexão com a Federação Mundial Metodista,  posiciona agora as mulheres metodistas angolanas dentro de uma rede internacional dedicada à justiça social e a igualdade de gênero. Esta ligação   ampliará o impacto das iniciativas nacionais.

Como parte das actividades finais, as participantes realizaram um desfile solidário, oferecendo produtos não perecíveis que foram posteriormente doados ao Lar da Terceira Idade do Beiral, em Luanda. A iniciativa simbolizou o espírito de solidariedade e compromisso social promovido durante a conferência.

A Directora-Geral da Organização de Mulheres da Conferência Anual do Oeste de Angola, Florinda Carlos António , que muito apelou em prol da unidade entre as mulheres, encerrou o evento destacando que “ a união, a educação e a fé são ferramentas essenciais para construir comunidades mais seguras e justas.”

A conferência terminou com um apelo à continuidade das acções de sensibilização, reforçando que o encontro foi uma oportunidade para as mulheres clérigas e leigas unirem-se e trabalharem juntas na construção de uma sociedade mais justa, segura e igualitária.

O silêncio começou a ser quebrado, temos ainda um caminho longo a percorrer e para muitas participantes, este é apenas o começo!


O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) reúne as informações e materiais de apoio sobre a campanha Quinta Feira de Preto. Acesse aqui.


Neusa Ndalamba é correspondente Lusófona em África , baseada em Angola.

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