PORTO RICO SE LEVANTA

Michelle Maldonado visitou Porto Rico quase um ano depois que o furacão Maria passou pela ilha. Ela foi inspirada pela comunidade que ela encontrou em Porto Rico, e desafiada por tudo que ainda esta esperando para ser feito. Esse é o seu diário de viagem:

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      Uma árvore que caiu durante a tempestade na área popular do velho San Juan, Porto Rico foi pintada pelos locais com a bandeira. Foto de Michelle Maldonado.

A medida que meu avião fazia sua aterrisagem no Aeroporto Internacional Luis Muños Marin, em San Juan, Porto Rico, pude ouvir os passageiros suspirando e comentando quantos "telhados azuis" estavam visíveis sob o avião. Eu olhei para fora da minha janela e, com certeza, havia milhares de lonas azuis penduradas nos telhados das casas até onde podíamos ver naquela altitude. Fiquei triste: se tinha tantos telhados azuis na área metropolitana onze meses depois do furacão Maria, isso significava que no campo, onde mora minha família, estava pior do que eu imaginava.

Descida no Aeroporto Internacional Luis Muños Marin em San Juan, Porto Rico. Foto de Michelle Maldonado 18/8/2018.

No dia 20 de setembro, 2017, o furacão Maria atingiu a ilha de Porto Rico como uma tempestade de categoria 5. Oficialmente, os ventos mais altos registrados na ilha mediram 175 MPH. Extraoficialmente, os moradores dizem que nas montanhas, os ventos atingiram mais de 200 MPH. Em tom de brincadeira eles chamam o furacão Maria de tempestade de categoria 6.

Nas semanas e meses seguintes à tempestade, Porto Rico experimentou algo como cenas de um filme apocalíptico. Não havia água, nem comida, nem eletricidade, nem linhas telefônicas, torres de telefonia celular nem internet - e o pior de tudo - pouca ajuda de emergência. O sistema médico entrou em colapso e a ajuda não chegou rápido o suficiente. Porto Rico viveu essa realidade por semanas que se transformaram em meses. Eu mencionei que esta tempestade atingiu os calcanhares do furacão Irma, que causou sua parcela de devastação no lado norte da ilha, apenas duas semanas antes?

Líderes da Igreja Metodista de Porto Rico, assim como os moradores locais que eu conheci, disseram que a ilha parecia ter sido bombardeada por uma bomba atômica. Toda a beleza verde da ilha tropical foi destruída pelos fortes ventos. Estruturas de madeira desapareceram e estruturas de cimento tombaram. Demorou dias para que as pessoas limpassem as estradas.

Ventos fortes destruíram a vegetação deixando para trás arvores desnudas. Foto de Gustavo Vasquez. Setembro 2017.

Quase um ano depois, o meio ambiente se recuperou, mas ainda há lembretes persistentes, tanto na natureza quanto na infraestrutura, de que algo terrível aconteceu há não muito tempo.

Galhos secos das árvores se destacam no meio da vegetação que se recupera. Foto de Michelle Maldonado agosto 25, 2018.

Em meados de agosto de 2018, houve notícias no continente dos Estados Unidos de que a eletricidade foi oficialmente restaurada para todos na ilha, mas os moradores dizem que isso não é verdade. A Igreja Metodista de Porto Rico identificou várias comunidades no interior e nas ilhas menores de Vieques e Culebra que ainda não receberam eletricidade. Eu viajei para o interior, no alto das montanhas, onde minha família vive, e com certeza, há áreas que não têm eletricidade. O furacão Maria causou inundações em toda a ilha - tanto nas regiões costeiras quanto no interior. Muitos bairros próximos ao oceano estavam completamente submersos na água. Outros bairros sofreram erosão massiva quando as águas chegaram.

      Uma casa na costa de Manatí desmoronou quando as águas da enchente erodiram a fundação. Foto de Michelle Maldonado.  

Pontes e estradas que originalmente foram destruídas pela tempestade 11 meses antes ainda precisam ser consertadas ou têm placas de ferro temporárias servindo como ponte para veículos leves. As estradas estão cheias de placas oficiais de municípios alertando sobre o perigo à frente ou placas improvisadas pintadas por moradores que direcionam o trânsito para outro caminho.

      Uma ponte que liga um bairro costeiro desapareceu quando o nível do mar subiu durante o furacão Maria. Foto de Michelle Maldonado. 

O número de mortos pelo furacão Maria é um assunto debatido. Foi originalmente relatado após a tempestade que cerca de 16 pessoas morreram. Em seguida, elevou-se para cerca de 64. Os porto-riquenhos contestaram em voz alta esse número dizendo que estava na casa dos milhares. Depois de estudos feitos por várias universidades e jornais, esse número subiu não oficialmente para 1.427, mas ainda assim foi recebido com ceticismo. Esse número continua aumentando. Líderes da Igreja Metodista de Porto Rico dizem que o número está, na verdade, mais perto de 3.000 mortes, com base no que viram e ouviram ao lidar com as consequências.

Moradores do interior do campo comentaram que não havia ninguém que pudesse pegar os corpos de entes queridos. Morgues e funerárias estavam cheios até a capacidade máxima funcionando com um gerador ou não tinham eletricidade. Entes queridos foram enterrados nos quintais da família porque não havia outras opções. À medida que a mortes continuavam aumentando, alguns locais conseguiram obter vários caminhões refrigerados para armazenar o maior número de corpos possível.

Foto de Michelle Maldonado.

Reconstruido, Rehace y UMCOR

Eu conversei muito com metodistas unidos que vieram dos Estados Unidos ajudar a Igreja Metodista de Porto Rico a reconstruir comunidades. Devo destacar que a Igreja Metodista Unida (UMC) e a Igreja Metodista de Porto Rico (IMPR) são duas entidades diferentes que estão historicamente ligadas e continuam a apoiar-se mutuamente.

A Igreja Metodista Unida tem um grupo chamado UMCOR (Comité Metodista Unido de Socorro). A UMCOR viaja pelo mundo prestando ajuda a comunidades que sofreram desastres naturais. Eles são famosos por seus "baldes de inundação" e por serem os primeiros a chegar no local após um desastre e sendo os últimos a sair depois que todos se recuperaram.

      Um número de baldes de inundação da UMCOR no centro de distribuição prontos para serem enviados quando necessário. Foto de Michelle Maldonado

A Igreja Metodista de Porto Rico e a UMCOR formaram uma parceria após o furacão Maria e criaram a iniciativa Rehace (pronuncia-se Re-ah-se). Em Porto Rico, pós Maria, Rehace é encarregada da reconstrução de casas, mas, mais importante, eles ajudam as famílias a superar os efeitos psicológicos de sobreviver a um desastre natural devastador.

  Os escritórios da Rehace e da Igreja Metodista de Porto Rico estão localizados em Rio Piedras, Porto Rico. Foto de Michelle Maldonado.

Rehace é um acrônimo e um jogo de palavras em espanhol. Literalmente significa "refazer". As famílias que entram na Rehace recebem uma assistente social que as ajuda a receber auxílio do governo, assistência médica, uma equipe de construção e também cuidados espirituais.

Nilsa Median tem uma casa de dois andares na cidade de Hatillo. Hatillo é uma cidade costeira no lado norte-central de Porto Rico. Uma área que foi devastada pela tempestade enquanto a tempestade deixava a ilha. Nilsa mora no primeiro andar com sua filha e neto. Seu primeiro andar é feito de concreto e sobreviveu à tempestade com pequenos danos. O segundo andar é a casa de sua mãe. Era feita de madeira. Quando a tempestade chegou, destruiu o segundo andar.

O segundo andar da casa de Nilsa foi destruído pelo furacão Maria. Foto de Michelle Maldonado.

Nilsa frequenta a Igreja Metodista Betel em Hatillo e conseguiu ajuda. A Rehace foi enfática com as pessoas dizendo que qualquer pessoa que precisasse de ajuda, sendo metodista ou não, iria receber. Missionários de conferências da UMC chegaram a Porto Rico para reconstruir seu segundo andar. Nesta casa em particular, havia pessoas da Virginia e da Carolina do Norte.

Foto de Michelle Maldonado. 

Pelo fato de Porto Rico ser uma ilha situada no meio de águas caribenhas propensas a furacões, a Rehace está reconstruindo casas com cimento e blocos de concreto. Como os meteorologistas têm previsto mais tempestades durante a atual temporada de furacões em 2018, a Rehace, missionários e equipes de construção estão sofrendo uma pressão para fornecer telhados resistentes antes que a próxima tempestade chegue.

Foto de Michelle Maldonado. 

A Igreja Metodista de Porto Rico iniciou um centro de distribuição na Igreja Metodista Puerto Nuevo, em Rio Piedras, Porto Rico, onde são guardadas roupas, produtos de higiene pessoal, alimentos, produtos para cuidados com bebês e idosos. Foi nesse local que sacolas de comida e itens básicos foram empacotados e colocados em uma van da igreja para distribuição em bairros onde a ajuda não havia chegado.

     Na Igreja Metodista Puerto Nuevo, sacolas de supermercado foram cheias de comida e itens básicos, depois colocadas em uma van da igreja e distribuídas aos bairros. Foto de Rev. Virna Solis, setembro, 2017.

Atualmente, este centro de distribuição está estocando para a próxima tempestade da estação, ao mesmo tempo em que continua enviando alimentos, produtos de higiene e até móveis para as famílias em processo de reconstrução de suas casas.

Cada cômodo desse centro está cheio até o teto de suprimentos e comida. Foto de Michelle Maldonado.

RESILIÊNCIA

Um ano se passou desde que os furacões Irma e Maria devastaram Porto Rico. Quase meio milhão de porto-riquenhos se mudaram da ilha e se estabeleceram, principalmente na região central da Flórida, bem como nas áreas de Nova York e Chicago. Aqueles que permaneceram na ilha lidam com um desastre natural sem precedentes, uma economia em crise e um governo deficiente. Ainda assim, seus espíritos e determinação para a reconstrução continuam fortes. Bandeiras voam alto e com orgulho por toda a ilha.

Os comércios têm cartazes dizendo, "Já estamos abertos, Porto Rico se Levanta" ou "Sim, estamos abertos, Porto Rico vai se erguer novamente". A hashtag de mídia social #PuertoRicoSeLevanta ou #PRSeLevanta é pintada por toda parte como um lembrete.

 

 

 

 

 

 

Os porto-riquenhos são um povo muito orgulhoso e eles tem orgulho principalmente de sua ilha tropical e suas belezas naturais. Vê o país devastado partiu o coração de muitos na ilha e no continente. "Porto Rico se levanta" não se refere apenas às pessoas, refere-se ao meio ambiente. E a natureza está certamente se levantando. Montanhas estão verdes de novo, as águas estão turquesa e os animais estão de volta.

Foto de Michelle Maldonado.

A ausência de meio milhão de pessoas, além dos milhares que morreram, é perceptível em igrejas, escolas, trânsito e na área metropolitana. Durante meu tempo em Porto Rico, ouvi algumas histórias horríveis da minha família, moradores e líderes da igreja sobre as coisas que eles experimentaram após a tempestade. Mas também ouvi as histórias de como os vizinhos que nunca se conheceram ajudaram-se mutuamente a sobreviver. Famílias que estavam distantes se reconciliaram. Eu ouvi repetidamente que o Natal após a tempestade foi o melhor Natal em anos, apesar de não terem água ou eletricidade. As pessoas estão felizes por estarem vivas e são gratas por terem suas famílias. Algumas famílias perderam entes queridos, assim como minha família, mas isso solidificou os laços familiares. Eu vi os porto-riquenhos sendo mais gratos por suas famílias e comunidades durante uma época em que o individualismo quase invadiu a cultura. Esta é uma cultura de resiliência e unidade, onde encontrar o lado positivo e leve das dificuldades e levantar a si mesmo e sua família alivia o fardo de ser uma ilha e pessoas colonizadas.

A reconstrução de Porto Rico é um esforço contínuo que levará anos. Se você se sente chamado a fazer algo, mesmo um ano depois da tempestade, você não está muito atrasado. Há várias oportunidades para voluntários através da UMCOR with Rehace. Se você não pode fazer trabalho braçal, não pode tirar uma folga da escola ou trabalho, ou apenas não pode viajar, considere a possibilidade de doar para o fundo UMCOR's U.S. Disaster Reponse. UMCOR e Rehace estão usando esses fundos para comprar materiais de construção, suprimentos de emergência e para outras despesas. #PueroRicoSeLevanta assim como o sol nasce todos os dias na Ilha do Encanto.

Foto de Michelle Maldonado. 

Michelle Maldonado é diretora de the Seeker Communications at United Methodist Communications. [Publicado 19 de setembro, 2018]

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